As agruras dos fabricantes de trens
Horácio Brasil*
Em meados da década de 1990, faltou mercado para os grandes fabricantes de veículos sobre trilhos do mundo. É que os países mais desenvolvidos já tinham seus sistemas completos, ao passo que o Oriente contava com grandes fabricantes japoneses, coreanos e os chineses que, na época, já davam os primeiros passos no sentido de copiar as tecnologias europeias dos trens, metrôs e assemelhados. Teve início, então, um processo de fusão de fabricantes a ponto de, hoje, termos apenas dois grandes fabricantes na Europa (Alemanha/Inglaterra/França) e um na América do Norte (EUA/Canadá). Para esses fabricantes ocidentais sobraram o mercado latino-americano, os Estados Unidos (em linhas para passageiros), o Leste Europeu, o Oriente Médio e a África.
Difícil é vender trens a quem não tem cultura de transporte coletivo (EUA) ou não tem dinheiro para implantar e operar. Entretanto, num esforço extraordinário, esses grupos se aliaram a grandes construtores – e até a organizações financeiras mundiais –, “empurrando” projetos de trens urbanos que, na sua maioria, não foram bem-sucedidos, como se pode constatar na América Latina, nos exemplos de Lima, Salvador e Fortaleza, todos melancolicamente inconclusos. Explicação: no afã de venderem obras e equipamentos, foram esquecidas a funcionalidade do produto final e a capacidade de pagamento do cliente, entre outros “cochilos”.
Nos dias atuais, coreanos, japoneses e chineses voltam-se para o Ocidente com uma agressividade comercial inimaginável na década passada (basta dizer que o metrô de Salvador é um equipamento coreano vendido por uma “trade” japonesa), o que tem levado ao desespero os fabricantes tradicionais do Ocidente. A situação chega a tal ponto que o segmento joga pesado e alardeia ao mundo o veículo leve sobre trilhos – que é uma tecnologia de menor capacidade de transporte – como a panaceia das soluções urbanas para grandes cidades, a exemplo de Salvador e São Paulo, entre outras.
Mais uma vez, os governantes têm a oportunidade de não cair em mais um engodo que sobra sempre para o contribuinte. Consultando especialistas que, de fato, conheçam transporte coletivo urbano, poderão fazer como os dirigentes de mais de 160 cidades no mundo que ouviram o brasileiro Jaime Lerner e o colombiano Enrique Peñallosa, responsáveis pela efetiva implantação de sistemas de alta capacidade sobre pneus, rápidos, seguros e econômicos, em vez de se precipitarem pelos trilhos fáceis e ilusórios. Aliás, no tocante a trilhos, Salvador é traumatizada, há décadas.
*Horácio Brasil é mestre em Engenharia de Transporte pelo IME-RJ e superintendente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de Salvador (Setps).